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Educação do Campo: Um debate necessário

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Educação do Campo: Um debate necessário

Por Rafael Rossi*.

Há em nossa sociedade um movimento que aglutina pesquisadores de diversas universidades públicas pelo país, militantes de movimentos sociais, educadores e uma série de outros agentes; que têm impulsionado uma série de conquistas, debates e práticas rumo à garantia do direito à Educação no espaço agrário. Esse movimento se chama Educação do Campo! Entretanto é preciso lembrar que a luta pelo acesso à educação não é nova na pauta de reivindicações das populações camponesas.

O que é novo nesta luta é o caráter coletivo nacional que vêm se constituindo a partir de inúmeras experiências de enfrentamento e resistência em diversas localidades e territórios do país. Vários trabalhadores que moram em assentamentos rurais, por exemplo, auxiliam com sua própria força de trabalho a construção física das escolas de seus filhos, se preocupando com a qualidade do ensino e a permanência dos educandos.

Historicamente e, ainda hoje, o campo é visto e disseminado somente como local da produção agrícola, de uso elevado de mecanização, de relações também atrasadas e por diversos estereótipos de sua população que, em época de festas juninas saltam aos olhos. Entretanto, a maioria dos valores de solidariedade que comungamos nos espaços urbanos é proveniente desta gente que vive e trabalha no campo. É da terra que podemos pensar outros modos para mudar as desigualdades societárias sob outro aspecto e funcionamento.

Há uma música que diz: “Não vou sair do campo pra poder ir pra escola, educação do campo é um direito e não esmola!” e esse trecho ajuda a exemplificar de maneira clara o compromisso e posicionamento ético, político, social, cultural e pedagógico da educação do campo. Não se luta por uma educação que seja diferenciada num viés assistencialista e populista de “educação pobre para pobre”. Luta-se pelo direito à educação que permita aos camponeses a apropriação dos conhecimentos artísticos, filosóficos, culturais e científicos acumulados pela humanidade. Porém de que forma isso deve ocorrer? Com certeza, não devemos incorporar a Educação como mecanismo de expansão mercadológica e empresarial. “Competição”, “empreendedorismo”, “formação para o mercado de trabalho” por mais que apresentem “bons” resultados na prática, efetivamente não garantem com que os povos do campo se apropriem desse saber elaborado e desenvolvido ao longo da História e, desse modo, corre-se o risco de reforçar essa segregação ainda mais.

O número de escolas no campo que foram fechadas nos últimos anos é assombroso e esse patamar reflete o modelo de desenvolvimento agrário e societário que escolhemos e ajudamos a construir. Muitas pessoas acham normal educandos do campo saírem de suas residências e vir estudar em escolas na periferia das cidades. Ocorre que já está presente desde 1996 o direito à educação na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O trabalho nesse sentido, junto à cultura popular deve ser o meio através do qual se dá essa educação e não o fim. Numa sociedade desigual não é possível estimular ainda mais a competição, a ideologia dominante, o individualismo e o “salve-se quem puder” através da prática pedagógica. Isso no mínimo corresponde a uma morte do espírito libertário e emancipatório presente na educação do campo.

Este é um desafio que já vem colhendo frutos. Exemplo disso fora a conquista de cursos de Licenciatura em Educação do Campo presente em mais de 40 instituições de ensino superior públicas pelo país. Além disso, podemos citar a aprovação do Projeto de Lei da Câmara 98/2013 por meio da Comissão de Educação, Cultura e Esporte alterando a lei no. 3.394 de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para fazer constar a exigência de manifestação de órgão normativo do sistema de ensino para o fechamento de escolas no campo, indígenas e quilombolas. Até então várias escolas foram fechadas e graças às inúmeras manifestações, ocupações de secretarias municipais e estaduais de educação, enfim, graças à luta organizada dos camponeses que conseguiram um respaldo legal, e agora, as escolas no campo não poderão ser fechadas sem manifestação do órgão normativo do respectivo sistema de ensino, análise do diagnóstico do impacto da ação e manifestação da comunidade escolar.

Esse é só o começo para garantir uma educação no campo, porém o esforço é que ela seja efetivamente do campo, de sua gente, que respeite o trabalho e o modo de viver camponês com sua temporalidade e cultura própria. E para isso é preciso lembrar da frase atribuída a Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão e a coragem, a muda-las”.

*Rafael Rossi, docente do curso de Licenciatura em Educação do Campo na UFMS em Campo Grande – MS

 

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